ITED e domótica: o cabo que falta é sempre o de rede
O ITED parece assunto de técnicos. Só que é aqui que se decide onde fica o router e em que divisões há televisão.
A instalação ITED é a especialidade onde o dono de obra fala menos e devia falar mais. Parece assunto de técnicos, com siglas a mais e consequências invisíveis, e por isso quase toda a gente aceita o que o instalador propõe. Só que o que se decide aqui é onde vai estar o router, onde funciona o Wi-Fi e em que divisões há televisão. Isso não é técnico. É a vida da casa.
Em resumo
- O ITED tem de ser executado por instalador certificado pela ANACOM, e desde agosto de 2024 é o próprio instalador que faz a avaliação e envia o relatório de ensaios.
- O ATI vem por defeito numa caixa pequena de mais, e pedir um armário maior custa pouco e resolve dez anos de equipamentos.
- Um ponto de rede no teto de cada divisão vale mais do que qualquer extensor de Wi-Fi comprado depois.
- A cablagem de domótica, alarme e câmaras entra antes do reboco, ou não entra.
- Coordenar cada ponto de rede com uma tomada elétrica ao lado evita o clássico sítio que tem corrente e não tem cabo.
Segue a checklist do ITED e da domótica na app — passo a passo, sem esquecer nada.
Abrir checklist na app →O que a lei obriga e o que fica ao critério de quem constrói
A instalação ITED de uma moradia obedece ao Manual ITED da ANACOM, atualmente na 4.ª edição, e tem de ser executada por instalador com título profissional atribuído pela ANACOM. Um instalador sem esse título não consegue emitir o termo de responsabilidade, e sem termo de responsabilidade a infraestrutura não é aceite.
O manual fixa mínimos: uma tomada de dados e uma de televisão por divisão principal, duas de cada na zona de acesso privilegiado, e adaptadores de fibra ótica nessa mesma zona. Esses mínimos garantem que a casa é ligável por qualquer operador. Não garantem que funcione bem, e é aí que entra o dono de obra.
A separação entre tubagens também é regra, não opção. As condutas de telecomunicações não partilham roço com as da instalação elétrica nem com as da domótica. É uma exigência de qualidade de sinal e é verificada na avaliação da instalação.
As decisões que ninguém pergunta ao dono de obra
Onde fica o router, quantas televisões vai ter a casa e como entra a fibra são decisões do dono de obra, e as três costumam passar sem conversa nenhuma. O instalador cumpre o projeto, o projeto cumpre o mínimo legal, e a família descobre o resultado no dia da mudança.
Na minha obra foi exatamente assim que percebi o peso desta fase:
Esta fase das especialidades do ITED e das telecomunicações parece muito técnica e por isso a maioria das pessoas não faz pedidos ou comentários e aceita o que os profissionais sugerirem. Na realidade, é muito importante para o dia a dia da família definir onde é que vai ficar o router Wi-Fi, se a casa é grande e precisa de extensores, prever a possibilidade de ligar, além da televisão da sala, outras televisões na cozinha ou nos quartos ou noutras zonas da casa. Na minha casa, por exemplo, eu pedi que os fios da fibra que vêm de fora de casa entrassem para a caixa das telecomunicações por um tubo enterrado, porque não queria cabos pendurados na fachada, e tive de coordenar isso com a aplicação da relva artificial. Mesmo o quadro do ATI, que é onde ficam as comunicações, normalmente é uma caixa minúscula que não permite meter nada. Eu recomendo que seja grande e se preveja espaço para, por exemplo, colocar um switch para ligar vários equipamentos por cabo. Também me esqueci de coordenar os pontos de rede com as tomadas de eletricidade e, embora tenham ficado bem na maioria dos casos, não ficou em todos. Por exemplo, há sítios que têm eletricidade e onde queria meter um extensor de Wi-Fi mas não têm cabo de rede.
Duas destas decisões têm prazo apertado e nenhuma volta atrás. A entrada da fibra por tubo enterrado tem de ser combinada antes de o exterior estar feito, porque depois já há relva, calçada ou muro por cima. E o par ponto de rede mais tomada elétrica no mesmo sítio decide-se na visita conjunta com o eletricista, não depois.
O ATI: a caixa que toda a gente subdimensiona
O ATI, armário de telecomunicações individual, é o ponto onde entra a fibra do operador e de onde sai tudo o que é rede dentro de casa. Por defeito instala-se uma caixa pequena, dimensionada para o mínimo do manual, e é essa a origem de metade dos problemas de rede de uma casa nova.
Dentro do ATI acabam por conviver mais equipamentos do que a caixa comporta: a ONT da fibra, o router do operador, um switch, a central de amplificação de televisão, o alimentador das câmaras. Cada um aquece e ocupa espaço, e num armário fechado e apertado o calor é um problema real.
Pedir um ATI maior, com tomadas elétricas suficientes lá dentro e ventilação, custa poucas dezenas de euros numa obra de várias dezenas de milhares. Trocar o ATI depois obriga a abrir parede e a refazer as terminações de todos os cabos que lá chegam. Em casas grandes, um bastidor de 19 polegadas em vez de caixa é a escolha que mais tarde se agradece.
A localização também conta: acessível para manutenção, com ligação elétrica dedicada, longe da garagem húmida e fora do fundo de um roupeiro onde ninguém chega.
Cablagem: onde pôr os pontos de rede que vão fazer falta
O melhor Wi-Fi de uma casa não vem de um router potente na sala, vem de pontos de acesso distribuídos e ligados por cabo. Por isso a decisão mais rentável desta fase é deixar uma tomada de rede junto ao ponto de luz do teto de cada divisão principal. Um access point montado no teto cobre a divisão inteira sem cabos à vista, e essa é a solução com melhor cobertura numa casa.
Os extensores de Wi-Fi que se compram depois resolvem o sintoma e criam outro: repetem o sinal já degradado e cortam a velocidade a meio. Um cabo de rede até ao teto custa alguns euros durante a obra e não tem esse defeito.
As televisões merecem a mesma antecipação. Além da sala, prever ponto de rede e de televisão na cozinha, nos quartos e na zona de estar exterior, mesmo sem certeza de que vão lá estar aparelhos. Um ponto não usado não incomoda ninguém; um ponto em falta obriga a cabo à vista.
Deixar sempre mais condutas do que as necessárias é a regra prática desta fase, e o mesmo vale para o diâmetro. O custo é residual e é o que deixa acrescentar equipamentos daqui a cinco anos sem partir paredes.
Não percas nenhum alerta crítico na execução do ITED e da domótica.
Ver alertas na app →Domótica e câmaras: decidir antes do reboco ou não decidir
A cablagem de domótica, alarme e videovigilância entra nas paredes ao mesmo tempo que a do ITED, e não há segunda oportunidade. Sensores, atuadores, teclados, sirene, contactos de portas e janelas: cada ponto precisa de cabo, e acrescentá-lo depois significa abrir parede acabada ou aceitar soluções sem fios.
As câmaras exteriores têm um passo próprio que quase sempre falha: confirmar os ângulos de cobertura antes de fixar os suportes, e fixá-los antes de rebocar a fachada. Um suporte colocado depois do capoto obriga a furar isolamento e a resolver a estanquidade do furo.
Câmaras PoE, alimentadas pelo próprio cabo de rede, simplificam tudo: dispensam tomada elétrica junto à câmara e precisam apenas de um switch PoE no ATI. É uma decisão de arquitetura de rede que se toma antes de puxar cabo, não depois de comprar as câmaras.
Há um princípio a fixar sobre domótica e segurança: tudo o que é crítico anda por cabo. Um alarme ou uma fechadura dependentes só de Wi-Fi ficam inoperacionais numa falha de rede, que é exatamente o momento em que fazem falta.
Testes e fotografias antes de fechar paredes
Antes de rebocar, testa-se: continuidade dos cabos, atenuação nos pares de dados e funcionamento básico da central. Um cabo esmagado durante a passagem ou uma terminação mal feita não dão sinal nenhum enquanto a parede está aberta, e dão muitos sinais quando já não dá para lá chegar.
Depois dos testes, fotografar tudo, parede a parede, com a mesma disciplina usada na parte elétrica. O registo é pedido na avaliação da instalação e é o mapa que evita furar um cabo de rede daqui a uns anos para pendurar um quadro.
Avaliação, termo de responsabilidade e o que a ANACOM exige
Desde 1 de agosto de 2024 vigoram novos procedimentos de avaliação das ITED, aprovados pela ANACOM a 26 de julho desse ano. A avaliação passou a ser feita pelo próprio instalador, que elabora o Relatório de Ensaios e Funcionalidade, o REF, com os resultados dos ensaios, os certificados de calibração dos equipamentos e cópia do projeto executado.
O instalador tem dez dias úteis após a conclusão para entregar o termo de responsabilidade à ANACOM, ao dono de obra e ao diretor de obra, e mais dez dias úteis para enviar o REF à ANACOM. Estes prazos são do instalador, mas quem sofre o atraso é o dono de obra: sem esta documentação não há ativação de serviços nem processo de licença de utilização completo.
A conclusão prática: pedir cópia do termo de responsabilidade e do REF assim que a instalação fica pronta e guardá-los com a restante documentação da casa. É a única prova de que a infraestrutura cumpre o manual.
Quanto custa e quanto demora o ITED e a domótica em Portugal
A execução do ITED e da domótica de uma moradia unifamiliar em Portugal custa tipicamente entre 3.500 € e 12.000 € mais IVA e demora 2 a 4 semanas, cerca de 1,3% do custo total da construção. O intervalo é largo porque o ITED sozinho é uma fração do valor: o que faz o preço subir é a domótica, o número de câmaras e o nível de automação.
É por isso que esta é das fases com melhor relação entre o que se gasta a mais e o que se ganha em conforto. Duplicar os pontos de rede acrescenta algumas centenas de euros a um orçamento de dezenas de milhares. Acrescentá-los com a casa habitada custa uma obra.
A sequência de execução, na prática, é esta:
- Confirmar o título profissional do instalador ITED na ANACOM e a experiência do instalador de domótica no sistema escolhido.
- Rever o projeto ITED e definir onde fica o router e quantas televisões terá a casa.
- Definir a entrada da fibra, por tubo enterrado se não houver vontade de cabos na fachada.
- Escolher um ATI maior do que o mínimo, com tomadas elétricas e ventilação.
- Marcar cada ponto de rede ao lado da respetiva tomada elétrica, na mesma visita do eletricista.
- Prever ponto de rede no teto de cada divisão principal para access point.
- Executar tubagens ITED e de domótica separadas entre si e da elétrica.
- Fixar suportes de câmaras antes de rebocar, com os ângulos confirmados no local.
- Testar continuidade e atenuação e fotografar tudo antes de fechar paredes.
- Exigir cópia do termo de responsabilidade e do REF enviados à ANACOM.
Usa o Guia da Obra para acompanhar a tua obra em tempo real.
Experimentar grátis →Perguntas frequentes sobre ITED e domótica
Quem pode executar a instalação ITED?
Só um instalador com título profissional atribuído pela ANACOM. É esse instalador que assina o termo de responsabilidade e elabora o Relatório de Ensaios e Funcionalidade. Uma instalação feita por quem não tem título não é aceite, e sem essa documentação a casa fica sem ativação de serviços de telecomunicações e com o processo de licença de utilização incompleto.
Com fibra e Wi-Fi, ainda preciso de cabos de rede em casa?
Precisa, e sobretudo para o próprio Wi-Fi. O sinal chega mais longe e mais estável quando há pontos de acesso distribuídos pela casa, e cada um desses pontos precisa de um cabo até ao ATI. Extensores comprados depois repetem sinal já degradado e cortam velocidade. Um cabo até ao teto durante a obra custa poucos euros e resolve o problema à raiz.
Que tamanho deve ter o ATI?
Maior do que o mínimo. O ATI acaba por alojar a ONT da fibra, o router, um switch, a central de televisão e o alimentador das câmaras, e a caixa que vem por defeito não comporta isso com folga nem dissipa o calor. Em casas grandes vale a pena um bastidor de 19 polegadas. Trocar o ATI depois obriga a abrir parede e a refazer as terminações.
Vale a pena cablar a domótica se ainda não escolhi o sistema?
Vale. A escolha do sistema faz-se mais tarde, a cablagem não. Deixar cabo até aos pontos prováveis, sensores, teclados, câmaras e estores, mantém todas as opções em aberto por um custo residual. Sem cabo, restam soluções sem fios com autonomia limitada, ou obra em paredes acabadas para corrigir.
O que tenho de exigir ao instalador no fim?
Cópia do termo de responsabilidade e do Relatório de Ensaios e Funcionalidade enviados à ANACOM, com os resultados dos ensaios, os certificados de calibração e o projeto executado. Somam-se as fotografias da tubagem antes de fechar paredes. Sem estes documentos não há prova de conformidade, e eles são pedidos na venda do imóvel.
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