Projeto de eletricidade: o guia para a sua casa
O projeto de eletricidade decide onde há luz e tomadas em toda a casa. Custos, potência, circuitos dedicados e os erros que se pagam depois.
O projeto de eletricidade é onde se decide, meses antes de existir uma parede, cada sítio da casa onde vai haver luz, uma tomada ou uma máquina ligada. Parece um detalhe técnico para o engenheiro resolver. Não é. É a especialidade que mais condiciona o conforto do dia a dia, e os esquecimentos aqui pagam-se com extensões e fios à vista para o resto da vida.
Em resumo
- O projeto de eletricidade define quadros, circuitos, pontos de luz e tomadas, em conformidade com as normas da DGEG.
- Abaixo de 10,35 kVA basta uma ficha eletrotécnica assinada pelo técnico; acima disso é obrigatório projeto, que ronda os 750 €.
- A potência contratada tem de ser ajustada à casa real: a mais encarece a fatura, a menos provoca disparos constantes.
- Prever já o circuito dedicado para carregador de veículo elétrico, mesmo sem o instalar agora — fazê-lo depois custa 3 a 5 vezes mais.
- O maior erro não é técnico: é esquecer tomadas e pontos de luz, sobretudo no exterior.
Seguir a checklist desta especialidade na app — ponto a ponto, sem esquecer nada.
Abrir checklist na app →O que é o projeto de eletricidade (e quem o pode assinar)
O projeto de eletricidade é o documento que define toda a instalação elétrica da casa: o quadro, os circuitos, as proteções, e a posição de cada ponto de luz, interruptor e tomada. Faz parte das especialidades coordenadas antes do licenciamento e é a base de tudo o que depois se passa nas paredes.
Só pode ser assinado por um técnico responsável inscrito na DGEG, a Direção-Geral de Energia e Geologia. Verificar essa inscrição antes de contratar não é burocracia: é o técnico que assume o termo de responsabilidade pela segurança da instalação. Engenheiros eletrotécnicos inscritos na Ordem dos Engenheiros e na DGEG são quem pode fazê-lo.
Aqui há um detalhe que muita gente desconhece. Para potências até 10,35 kVA, a lei já não obriga a um projeto completo, basta uma ficha eletrotécnica assinada pelo técnico responsável. A maioria das moradias fica abaixo deste limite. Mesmo assim, vale tratar o documento com a seriedade de um projeto, porque é dele que sai o conforto elétrico da casa.
Potência contratada: o equilíbrio que mexe na fatura todos os meses
A potência contratada tem de ser ajustada à casa real, e este é um dos pontos onde mais se erra. Potência a mais aumenta o custo fixo da fatura todos os meses; potência a menos faz disparar o quadro sempre que se ligam dois eletrodomésticos ao mesmo tempo.
Em Portugal, os escalões mais comuns são 3,45 kVA para um agregado de duas pessoas e 6,9 kVA para uma família de quatro (ERSE, 2025). Mas o número certo depende do que a casa vai ter ligado: bomba de calor, placa de indução, forno, ar condicionado e carregador de carro elétrico empurram a potência para cima. Acima de 6,9 kVA, a instalação fica também sujeita a inspeção periódica obrigatória.
Vale confirmar com a E-REDES, o operador da rede de distribuição, se a potência pretendida está disponível na rede local antes de fechar o projeto. Em zonas rurais pode haver limitações que obrigam a repensar tudo, e descobri-lo tarde é dos atrasos mais frustrantes da obra.
Não deixar passar nenhum alerta crítico desta especialidade.
Ver alertas na app →O que prever hoje para não pagar caro amanhã
Há decisões que custam quase nada em projeto e muito dinheiro depois da casa pronta. A regra é simples: tudo o que envolve abrir uma parede ou puxar um cabo novo é caríssimo de fazer mais tarde. Vale a pena prever em excesso nestes pontos:
- Circuito para carregador de veículo elétrico. Mesmo sem comprar o carro já, deixar o circuito dedicado previsto. Instalar depois custa 3 a 5 vezes mais, e uma tomada normal não aguenta cargas longas com corrente elevada.
- Pré-instalação de painéis fotovoltaicos. Implica prever espaço no quadro elétrico e condutas desde o telhado. Deixar tudo preparado reduz muito o custo da instalação futura.
- Tomadas duplas em zonas de uso intensivo. Cozinha, escritório e sala enchem-se de equipamentos. O custo extra de uma tomada dupla em projeto é mínimo e evita extensões permanentes.
- Tomadas e iluminação no exterior. Para limpar a entrada, regar o jardim ou usar uma máquina de pressão, é preciso eletricidade lá fora. Quase ninguém prevê o suficiente.
- Pontos para portão, alarme e câmaras. O painel de controlo do portão, o alarme e as câmaras de videovigilância precisam de alimentação prevista de raiz.
Também vale localizar bem o quadro elétrico com o arquiteto: acessível, protegido de humidade e com espaço para ampliações futuras. Um quadro mal colocado é um arrependimento diário.
A coordenação que evita metade dos erros em obra
O projeto elétrico é a especialidade mais interligada de todas, e é dessa falta de coordenação que nasce a maioria dos erros em obra. A eletricidade tem de conversar com o ITED, o AVAC, a domótica e o gás antes do licenciamento, não durante a obra.
Quando estas especialidades são desenhadas em silos, aparecem os conflitos: a conduta do ar condicionado passa onde devia ir um cabo, o ponto de dados fica longe da tomada, o termostato não tem alimentação. Cada um destes choques resolve-se com remendos visíveis ou com paredes reabertas. Coordenar à mesa, no papel, é sempre mais barato.
Na fase das especialidades, a eletricidade foi das mais difíceis, porque numa fase inicial da obra é muito complicado decidir todos os sítios onde vai haver luz, focos embutidos ou candeeiros, e onde vão estar todas as máquinas. Esqueci-me de coisas, sobretudo no exterior, que depois condicionaram bastante a forma como uso a casa. Faltaram-me tomadas no balcão da cozinha, e ando a ligar extensões. E para limpar a entrada, a rampa do carro ou o jardim com máquina de pressão, é preciso ter não só água como eletricidade lá fora, coisa que não previ o suficiente.
A lição é a mesma da água: percorrer a casa divisão a divisão, com a família, e imaginar cada situação em que se vai precisar de eletricidade. Pôr a mais é quase sempre o melhor negócio. O contrário são puxadas elétricas à vista nos rodapés e nos cantos das paredes.
O quadro elétrico: o coração que vale a pena sobredimensionar
O quadro elétrico é onde se concentram os disjuntores e proteções que distribuem e protegem cada circuito da casa. É o coração da instalação, e é também o sítio onde compensa pensar em grande desde o início. Um quadro com circuitos a mais não estraga nada; um quadro cheio obriga a obras quando se quer acrescentar seja o que for.
Pedir ao projetista o esquema do quadro com todos os circuitos identificados e as proteções dimensionadas. Cada equipamento de grande consumo deve ter o seu circuito dedicado, e devem ficar previstos os módulos livres para futuras ampliações: o carregador do carro, os painéis solares, uma bomba de calor que se acrescente mais tarde. A diferença de custo entre um quadro justo e um quadro com folga é pequena na obra e enorme depois.
As proteções não são opcionais. Um quadro bem feito tem interruptor diferencial, disjuntores por circuito e proteção contra surtos, sobretudo numa casa cheia de eletrónica e equipamentos sensíveis. Esta é a parte invisível do projeto, a que ninguém vê depois de as paredes fecharem, mas é a que protege as pessoas e os bens. Por isso é o último sítio onde faz sentido poupar.
Usar o Guia da Obra para acompanhar cada especialidade em tempo real.
Experimentar grátis →Perguntas frequentes sobre o projeto de eletricidade
Quanto custa o projeto de eletricidade de uma moradia?
Quando é obrigatório (potência acima de 10,35 kVA), o projeto ronda os 750 € em média. Abaixo desse limite basta uma ficha eletrotécnica assinada pelo técnico responsável, com custo menor. A instalação elétrica completa, à parte do projeto, varia tipicamente entre 250 € e 1.500 € conforme a dimensão e o nível de acabamento.
Que potência devo contratar?
Depende do que a casa vai ter ligado. Os escalões mais comuns em Portugal são 3,45 kVA para dois habitantes e 6,9 kVA para uma família de quatro. Bomba de calor, indução, forno e carregador de carro elétrico empurram a potência para cima. Contratar a mais encarece a fatura fixa; a menos provoca disparos constantes no quadro.
Preciso mesmo de prever o circuito do carregador do carro elétrico agora?
Sim, mesmo sem ter ainda o carro. Deixar o circuito dedicado previsto em projeto custa pouco; instalá-lo depois custa 3 a 5 vezes mais, porque obriga a puxar cabo novo e a mexer no quadro. Uma tomada normal não aguenta cargas longas com corrente elevada e cria risco de sobreaquecimento.
Quem pode assinar o projeto elétrico?
Só um técnico responsável inscrito na DGEG, normalmente um engenheiro eletrotécnico também inscrito na Ordem dos Engenheiros. É esse técnico que assume o termo de responsabilidade pela instalação. Confirmar a inscrição na DGEG antes de contratar evita problemas no licenciamento e na futura certificação da instalação.
A instalação elétrica tem de ser inspecionada?
Sim. As instalações são sujeitas a inspeção para certificação junto da DGEG e do distribuidor de energia. Para moradias com potência até 6,9 kVA, o pedido pode ser feito diretamente na plataforma da DGEG. Instalações sem técnico responsável de acompanhamento têm ainda inspeções periódicas obrigatórias de cinco em cinco anos.
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