Projeto acústico (RRAE): o sossego da casa

O projeto acústico decide o sossego da casa, entre divisões e do exterior. Soluções, custos e os erros que se pagam depois da obra.

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Painéis acústicos numa parede, para isolamento sonoro de uma habitação
Foto: 2H Media via Unsplash

O projeto acústico é o que decide se a casa vai ser o refúgio sossegado que se imagina ou um sítio onde se ouve tudo, de fora para dentro e de divisão para divisão. Garante o cumprimento do RRAE, o regulamento do isolamento sonoro, mas o que está em jogo é muito mais concreto: poder ver um filme na sala sem acordar quem dorme no quarto.

Em resumo

  • O projeto acústico garante que a casa cumpre os requisitos de isolamento sonoro do RRAE, entre divisões e face ao exterior.
  • É obrigatório para habitação nova (DL 96/2008) e o incumprimento impede a licença de utilização.
  • Há dois tipos de ruído a tratar: o aéreo (vozes, TV) e o de percussão (passos, móveis a arrastar).
  • As portas interiores ocas são o elo mais fraco; especificar portas com classificação acústica adequada.
  • Corrigir acústica depois da obra feita é caríssimo — tudo se define em projeto.

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O que é o projeto acústico e porque importa numa moradia

O projeto acústico garante que a casa cumpre os requisitos legais de isolamento sonoro entre divisões e face ao exterior. É enquadrado pelo RRAE, o Regulamento dos Requisitos Acústicos dos Edifícios (Decreto-Lei 96/2008), e é obrigatório para edifícios de habitação novos. Sem ele, a câmara não emite a licença de utilização.

Muita gente pensa que a acústica só importa em apartamentos, por causa dos vizinhos. Erro. Numa moradia, quem constrói anda à procura de sossego e de conforto, e é justamente aí que o projeto acústico faz a diferença. Não é só o ruído de fora que conta, é o ruído de uma divisão para a outra dentro da própria casa.

O regulamento fixa valores concretos. Entre fogos, o isolamento a sons aéreos deve garantir um índice DnT,w de pelo menos 50 dB, e os sons de percussão entre pisos não devem ultrapassar um L'nT,w de 60 dB (RRAE, DL 96/2008). Numa moradia isolada nem todos os requisitos se aplicam da mesma forma, mas a lógica de conforto mantém-se: definir bem o isolamento é o que separa uma casa tranquila de uma caixa de ressonância.

Os dois ruídos que o projeto tem de resolver

Há dois tipos de ruído, e cada um trata-se de forma diferente. Confundi-los é o erro de base de quem ignora a acústica. Perceber a diferença é o primeiro passo para uma casa silenciosa.

  1. Ruído aéreo. Vozes, televisão, música. Propaga-se pelo ar e atravessa paredes, portas e janelas. Combate-se com massa e com paredes duplas.
  2. Ruído de percussão. Passos, móveis a arrastar, objetos a cair. Transmite-se pela estrutura do edifício, de piso para piso. Combate-se desligando o pavimento da estrutura.

Contra o ruído aéreo, a solução de referência é a parede de alvenaria dupla com caixa-de-ar, idealmente preenchida com lã mineral. Tem um desempenho muito superior a um pano simples de parede, e vale validar esta opção com o projetista antes de fechar as soluções. Para o ruído entre divisões interiores, uma estrutura de gesso cartonado com isolamento no interior cria o mesmo efeito de parede dupla.

Contra o ruído de percussão, a solução é a laje flutuante: o pavimento assenta sobre uma camada resiliente, desligada da estrutura, que corta a transmissão de sons de impacto entre pisos. Custa tipicamente entre 50 € e 100 €/m², e é praticamente impossível de acrescentar depois sem levantar o pavimento todo.

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As portas interiores são o elo mais fraco entre divisões. Uma porta oca deixa passar quase todo o som, por melhor que seja a parede. Especificar desde já portas com classificação acústica adequada, de pelo menos Rw 30 dB entre quartos e zonas comuns.

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O sossego entre divisões: a lição que vivi de perto

A acústica entre divisões é a parte que mais se subestima, e a que mais se sente no dia a dia de uma família. Não é o barulho da rua que perturba todos os dias, é o barulho de uma divisão a invadir a outra. E isso resolve-se no projeto, não depois.

No meu caso, não tinha só medo do barulho de fora para dentro da casa, tinha também bastante medo do barulho de umas divisões para as outras. Tenho um bebé e não queria que, quando ele chorasse de noite, acordasse o meu filho mais velho. E não queria que, quando o bebé fosse para a cama, não pudéssemos estar na sala a ver um filme porque o barulho chegava aos quartos. Estas variáveis são importantes e devem ser discutidas com o arquiteto e com o projetista acústico, para garantir que as necessidades da família ficam acauteladas.

O nível de exigência depende muito da localização. Uma casa junto a uma autoestrada, a uma zona de muito trânsito ou a fontes de ruído precisa de mais cuidado com o isolamento face ao exterior. Mas mesmo numa zona sossegada, o isolamento interior, entre quartos, sala e zonas comuns, é o que garante o conforto que se procura ao construir uma moradia.

A caixilharia fecha o conjunto. Investir em vidro duplo ou triplo com caixilho de corte térmico melhora ao mesmo tempo o desempenho acústico e o térmico, por isso é das decisões que rende em duas frentes. As janelas antirruído custam mais, mas numa fachada exposta a barulho fazem toda a diferença.

Coordenar e definir cedo: a única forma de não refazer

A regra de ouro da acústica é uma só: definir tudo em projeto, porque corrigir depois da obra feita é extremamente caro. Refazer um pavimento para meter uma laje flutuante ou abrir uma parede acabada para a duplicar custa uma fortuna e estraga o que já estava pronto.

O projeto acústico tem de ser coordenado com a arquitetura, o AVAC e as estruturas, porque as soluções de cada especialidade afetam o desempenho acústico. As soluções construtivas, como a laje flutuante e os tetos falsos, têm de ser compatíveis com os pés-direitos definidos na arquitetura. E os equipamentos AVAC têm requisitos próprios de ruído que entram nas contas.

Vale ainda confirmar com a câmara se o ensaio acústico in situ é exigido. Esse ensaio faz-se com a obra concluída, já na fase de vistorias, e mede o desempenho real da casa. Em moradias unifamiliares isoladas pode não ser obrigatório, mas convém esclarecer antes do licenciamento. As decisões que vale a pena fechar cedo:

  1. Paredes duplas com caixa-de-ar e lã mineral nas zonas críticas.
  2. Laje flutuante entre pisos para cortar o ruído de percussão.
  3. Portas interiores com classificação acústica adequada.
  4. Caixilharia com vidro duplo ou triplo e boa vedação.
  5. Tratamento do ruído dos equipamentos AVAC.
  6. Compatibilidade das soluções com os pés-direitos da arquitetura.

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Perguntas frequentes sobre o projeto acústico

O projeto acústico é obrigatório numa moradia nova?

Sim. O projeto acústico é obrigatório para edifícios de habitação novos, ao abrigo do RRAE (Decreto-Lei 96/2008), e o incumprimento impede a emissão da licença de utilização. Garante que a casa cumpre os requisitos de isolamento sonoro entre divisões e face ao exterior. Tem de ser feito por um técnico qualificado em acústica.

A acústica só importa em apartamentos?

Não. Numa moradia, quem constrói procura sossego, e o projeto acústico é o que o garante. Não conta só o ruído da rua, mas também o ruído de uma divisão para a outra dentro de casa. Poder ver um filme na sala sem acordar quem dorme, ou evitar que um quarto incomode o outro, é tudo decidido no projeto acústico.

O que é o ruído de percussão e como se combate?

É o ruído transmitido pela estrutura, como passos ou móveis a arrastar, que passa de piso para piso. Combate-se com laje flutuante: o pavimento assenta sobre uma camada resiliente, desligada da estrutura, que corta a transmissão. Custa entre 50 € e 100 €/m² e é quase impossível de acrescentar depois sem levantar o pavimento.

Porque é que as portas são tão importantes?

Porque são o elo mais fraco. Uma porta interior oca deixa passar quase todo o som, por melhor que seja a parede ao lado. Especificar portas com classificação acústica adequada, de pelo menos Rw 30 dB entre quartos e zonas comuns, e cuidar da vedação na base, faz uma diferença enorme no sossego entre divisões.

Tenho de fazer ensaio acústico no fim da obra?

Depende. O ensaio acústico in situ faz-se com a obra concluída e mede o desempenho real. Em moradias unifamiliares isoladas pode não ser obrigatório, mas convém confirmar com a câmara antes do licenciamento. Definir as soluções corretas desde o projeto é a única forma de garantir aprovação sem ter de refazer pavimentos ou paredes acabadas.

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